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segunda-feira, junho 14, 2010

Amarras

E na rede de medo em que me inventei, estou farto das cordas em que me amarro: a teia frágil de incertezas de que não posso fugir, o escudo emoldurado com o qual encubro minha parca e insossa nudez, disforme, fora dos perímetros milimetricamente traçados, me descubro infante e perdido, e me recubro na imagem, já gasta, do super-herói. O tempo futuro de possibilidades, afunila-se no presente de ralidades e acumula-se num passado sem cores, sem traçado, sem risco...
E assim, risco de mim todos os riscos, esperando que de alguma forma o encomodo do frio-árrido que aqui se espraia me mova a arriscar.

segunda-feira, julho 27, 2009

Relato, Retrato, Re-trato
27/07/2009

Pus um disco a tocar hoje, como há muito não faço... A trilha? Não poderia ser outra: Los Hermanos. Pensei até em postar uma música deles aqui, pensei em O Velho e o Moço, na verdade, queria reescrevê-la ou escrevê-la, queria ter eu a escrito... Afinal, eu “vejo tudo assim, e não me importo em ver a idade em mim”; ou será a vaidade?
A idade e a vaidade têm me pregado peças muito maiores que a simples rima: aquela pesa mais que as mãos de uma criança, pois é puro o tempo de depuração, “tempo em que não se diz mais: meu amor, porque o amor restou inútil”; esta é minha marca, a vaidade é minha inócua e iníqua veleidade – mar aberto por onde navego, velejo, velo e naufrago.
Tenho andando mesmo distraído, impaciente e indeciso e tanta coisa desperdicei quando o que eu mais queria era provar pra todo mundo que eu não precisava provar nada ninguém – outra letra que aqui cabe bem, e mais uma vez nada de original...
Tenho andando vago. Vago e cheio de minha própria vaguidão (se me permitem o neologismo). As linhas que escrevo correm um curso que não controlo, tentam desenhar, como agora, um estado, incongruente, indelimitável, insípido, inodoro... A tarefa é árdua e quase sempre resulta falha: a pré-ocupação, com os pontos e vírgulas, não me deixam ocupar de mim mesmo e vago eu fico cheio de minha vaguidão.
Talvez as vírgulas e os pontos não sejam tão importantes, mas, por enquanto, é neles que me sustento, por ora, a eles me ato, neste e em todos os outros atos.
* O mar em Saintes Maries de la Mer -Van Gogh

sábado, janeiro 19, 2008

Evidente!
É tudo tão óbvio! Tudo tão evidente, claro, limpo, límpido e à face de todos... Perceber, neste caso – e que fique claro que trato apenas deste caso e de nenhum mais – é ter fome! Mas não há fome, não há sede, não há nada. (É engraçado usar esta figura de linguagem – a gradação – isto porque todos sabem, ao ler a segunda oração, de exato como será a última, o que a torna até certo ponto inútil se se quer dizer algo a mais, contudo neste caso, e mais uma vez friso – desesperadamente – que trato apenas deste caso, ela diz algo mais: ela é evidente!)
... não há nada. A fome é algo que não há. Há motivos para se afirmar isso, mas prefiro ficar com Clarisse quando diz “pensar é um ato, sentir é um fato”. Assim, o que será o perceber, um ato ou um fato? Sem fome, nem o perceber será!